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Reconectando memórias: CBD e Alzheimer
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Imagine assistir, pouco a pouco, uma pessoa querida deixar de reconhecer rostos familiares, esquecer conversas do dia anterior e, aos poucos, perder o fio da própria história. 

Essa é a realidade cruel do Alzheimer.

Nos últimos anos, a relação entre CBD e Alzheimer tem ganhado cada vez mais atenção nos principais centros de pesquisa do mundo, trazendo resultados que abrem novas janelas de esperança para pacientes e cuidadores.

CBD e Alzheimer

O que é o Alzheimer?

 

A Doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência, responsável por até 70% dos casos globais. Trata-se de uma condição neurodegenerativa progressiva, o que significa que, com o tempo, as células nervosas do cérebro são progressivamente destruídas.

O processo começa, em geral, nas regiões ligadas à memória, como o hipocampo, e se expande gradualmente para outras áreas cerebrais, comprometendo linguagem, raciocínio, orientação e comportamento.

Além do declínio cognitivo, o Alzheimer provoca importantes alterações comportamentais e neuropsiquiátricas, como agitação, agressividade, distúrbios do sono, delírios e alucinações. Esses sintomas, muitas vezes, são os que mais impactam a qualidade de vida — tanto do paciente quanto de quem cuida. 

Por isso, o tratamento não deve olhar apenas para a cognição, mas também para o bem-estar emocional e funcional do indivíduo como um todo.

Canabidiol e Alzheimer

O Sistema Endocanabinoide na Doença de Alzheimer

 

Para entender como o CBD age no Alzheimer, é preciso conhecer o Sistema Endocanabinoide (SEC),  uma rede de receptores, enzimas e moléculas sinalizadoras presente em todo o nosso organismo, especialmente no cérebro. Os principais receptores desse sistema, chamados CB1 e CB2, estão altamente expressos em regiões cerebrais diretamente envolvidas na cognição, como o hipocampo e o córtex cerebral.

O que a ciência demonstra é que, com o envelhecimento, a expressão desses receptores canabinoides diminui progressivamente nessas áreas-chave — córtex, hipocampo e sistema límbico. Essa redução cria um desequilíbrio no sistema que, segundo pesquisadores, está relacionado ao agravamento dos processos neurodegenerativos. Portanto, modular o SEC terapeuticamente torna-se uma estratégia promissora no contexto das doenças que afetam o cérebro envelhecido.

Além disso, estudos publicados no Journal of Alzheimer’s Disease apontam que o sistema endocanabinoide está diretamente envolvido na regulação da neuroinflamação, do estresse oxidativo e do acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau, os dois principais marcadores patológicos do Alzheimer. Sendo assim, quando o SEC é modulado de forma controlada, ele pode atuar como um verdadeiro “guardião” das conexões neuronais, reduzindo os danos que levam à perda de memória.

CBD e Alzheimer

CBD e Alzheimer: mecanismos moleculares do Canabidiol

 

O canabidiol (CBD) é um dos principais compostos ativos da Cannabis sativa e, diferentemente do THC, não provoca efeitos psicoativos. Sua ação no Alzheimer ocorre por múltiplos mecanismos simultâneos. 

Em primeiro lugar, o CBD reduz a neuroinflamação ao modular citocinas pró-inflamatórias como TNF-α e IL-6, que costumam estar elevadas no cérebro de pacientes com a doença. Paralelamente, suas propriedades antioxidantes neutralizam os radicais livres responsáveis por danos às células nervosas, um processo central na progressão da demência.

Além disso, evidências pré-clínicas publicadas no Frontiers in Pharmacology mostram que o CBD é capaz de reduzir o acúmulo de placas beta-amiloide, inibir a hiperfosforilação da proteína tau e estimular a neurogênese hipocampal, ou seja, favorecer o nascimento de novos neurônios justamente na região mais afetada pelo Alzheimer. 

Esses mecanismos, em conjunto, explicam por que a relação entre CBD e Alzheimer tem sido tão investigada: o canabidiol não atua em um único alvo, mas em várias frentes da fisiopatologia da doença ao mesmo tempo.

 

Canabidiol e Alzhemer

CBD e Alzheimer: o que os estudos apontam

 

Os resultados clínicos são cada vez mais encorajadores. Em um ensaio clínico randomizado controlado por placebo (Hermusch et al., 2022), 60 pacientes com idade superior a 60 anos e diagnóstico de distúrbio neurocognitivo grave receberam extrato de Cannabis (30% de CBD e 1% de THC) três vezes ao dia por 16 semanas. Os resultados foram significativos: o grupo tratado apresentou redução de 8 pontos na Escala de Agitação de Cohen-Mansfield (CMAI), em comparação a apenas 4 pontos no grupo placebo, com perfil de segurança excelente e sem diferenças relevantes nos eventos adversos entre os grupos.

No campo dos relatos clínicos, uma descrição de caso feita por um médico prescritor ilustra o potencial do CBD na prática real. Uma paciente de 92 anos com Alzheimer avançado e variante comportamental, em uso de 9 medicações psicotrópicas simultâneas e com agitação grave e refratária, iniciou o uso de Canabidiol com titulação gradual. Após apenas um mês, foi possível reduzir para 2 medicações, com melhora significativa dos episódios de agitação e dos distúrbios do sono, sem sedação excessiva, quedas ou eventos adversos graves. 

Da mesma forma, um estudo prospectivo de Broers et al. (2019) com 10 pacientes em instituição de longa permanência apontou redução de 53% no Inventário Neuropsiquiátrico e de 63% na escala de agitação, além de melhora da rigidez muscular e do bem-estar geral.

CBD e demência

CBD e Alzheimer: A esperança quando tudo parece desaparecer


A ciência avança, e os dados sobre CBD e Alzheimer acumulam cada vez mais evidências positivas. Longe de ser uma promessa vaga, o canabidiol já demonstra, em estudos controlados e em casos reais, sua capacidade de reduzir agitação, melhorar o sono, diminuir a carga de medicamentos e proporcionar mais conforto e dignidade a quem convive com a doença.

Evidentemente, o tratamento deve ser sempre individualizado, supervisionado por um profissional de saúde qualificado e combinado com abordagens não farmacológicas.

O que fica claro, portanto, é que o CBD representa um caminho real e promissor dentro do cuidado integrado ao Alzheimer, especialmente para aqueles casos em que as terapias convencionais se mostram insuficientes ou repletas de efeitos adversos.

Afinal, reconectar memórias pode não ser possível, mas reconectar qualidade de vida, calmaria e presença,  isso, a ciência está mostrando que é sim. E isso faz toda a diferença.

 

Referências

Hermusch, C. et al. (2022). Effects of cannabidiol-rich oil on behavioral alterations in patients with dementia: a randomized controlled clinical trial.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36148467/ 

Broers, B. et al. (2019). Prescription of a THC/CBD-based medication to patients with dementia: a pilot study in Geneva.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34676334/ 

Ease Labs Pharma (2025). Uso do canabidiol como alternativa terapêutica para distúrbios comportamentais de difícil controle na demência avançada — Relato de Caso. Dra. Eliza De Oliveira Borges, CRM 14388/GO.

Ease Labs Pharma (2025). Cannabis Medicinal na Geriatria — Apostila Clínica.

https://easelabspharma.com.br

Fernández-Ruiz, J. et al. (2015). Cannabidiol for neurodegenerative disorders: important new clinical applications for this phytocannabinoid? British Journal of Clinical Pharmacology, 75(2), 323–333.
https://bpspubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1365-2125.2012.04341.x 

Watt, G. & Karl, T. (2017). In vivo evidence for therapeutic properties of cannabidiol (CBD) for Alzheimer’s disease. Frontiers in Pharmacology, 8, 20.
https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fphar.2017.00020/full

Aso, E. & Ferrer, I. (2014). Cannabinoids for treatment of Alzheimer’s disease: moving toward the clinic. Frontiers in Pharmacology, 5, 37.
https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fphar.2014.00037/full

Libro, R. et al. (2016). Cannabidiol protects oligodendrocyte progenitor cells from inflammation-induced apoptosis by attenuating endoplasmic reticulum stress. Cell Death & Disease, 7(5).
https://www.nature.com/articles/cddis201271 

Cheng, D. et al. (2014). Long-term cannabidiol treatment prevents the development of social recognition memory deficits in Alzheimer’s disease transgenic mice. Journal of Alzheimer’s Disease, 42(4), 1383–1396.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25024347/