O uso de Cannabis no tratamento de TEA vem apresentando bons avanços e resultados positivos. Evidências científicas crescentes apontam que o canabidiol (CBD), composto da Cannabis sativa, pode atuar na redução de sintomas como ansiedade, agitação, comportamentos repetitivos e insônia em pessoas com Transtorno do Espectro Autista. Mas o que exatamente a ciência já mostrou? E como funciona esse tratamento na prática?
Neste artigo, você vai entender tudo: desde o que é o TEA e como ele afeta o sistema nervoso, até os estudos mais recentes sobre o CBD e como iniciar o tratamento de forma segura e legalmente no Brasil.


O Transtorno do Espectro Autista (TEA)
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição neurológica e do desenvolvimento que afeta a forma como uma pessoa percebe o mundo, se comunica e interage socialmente. O termo “espectro” existe justamente porque suas manifestações variam de pessoa para pessoa, do grau mais leve, onde o indivíduo tem alta independência funcional, ao mais severo, com necessidade de suporte integral em todas as atividades da vida.
Ao longo do tempo, diferentes nomenclaturas foram usadas para descrever o que hoje chamamos de TEA: autismo clássico, síndrome de Asperger, transtorno global do desenvolvimento (TGD) e transtorno invasivo do desenvolvimento. Desde 2013, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) unificou todas essas categorias sob o guarda-chuva do TEA, classificado em três níveis de suporte (1, 2 e 3), de acordo com a intensidade do impacto funcional [American Psychiatric Association, 2013].
O diagnóstico é clínico e se baseia principalmente na observação de dois grupos de sintomas: déficits na comunicação e interação social (dificuldade em manter conversas, compreender linguagem não verbal, criar e manter vínculos) e padrões restritos e repetitivos de comportamento (estereotipias, resistência a mudanças de rotina, hipersensibilidade sensorial). Os primeiros sinais geralmente aparecem nos dois primeiros anos de vida, embora o diagnóstico formal frequentemente ocorra mais tarde.
Além disso, o TEA raramente vem sozinho. É muito comum a presença de comorbidades como ansiedade, TDAH, epilepsia, insônia e transtornos gastrointestinais. São justamente essas condições associadas que, em grande parte, motivam a investigação do canabidiol como aliado terapêutico, e que têm mostrado resposta mais consistente nos estudos clínicos até agora.


O que é o sistema endocanabinoide e por que ele importa no TEA
Para entender por que a Cannabis no tratamento de TEA faz sentido cientificamente, é preciso conhecer um sistema pouco falado, mas extremamente importante: o sistema endocanabinoide (SEC). Esse sistema é uma rede de sinalização química presente em praticamente todo o organismo, especialmente no sistema nervoso central, e é responsável por regular funções vitais como humor, sono, memória, resposta ao estresse, apetite e interação social.
The SEC é composto por três elementos principais:
- Endocanabinoides: moléculas produzidas pelo próprio organismo, como a anandamida e o 2-AG, que atuam como mensageiros químicos
- Receptores canabinoides: principalmente CB1 (abundante no sistema nervoso central) e CB2 (mais presente no sistema imunológico e periférico)
- Enzimas: responsáveis por sintetizar e degradar os endocanabinoides após sua função.
Estudos em modelos animais demonstraram uma desregulação do sistema endocanabinoide em indivíduos com TEA [Zamberletti et al., 2017]. Especificamente, pesquisas identificaram que pessoas com autismo apresentam níveis reduzidos de anandamida, o principal endocanabinoide relacionado ao prazer social e à regulação emocional. Essa deficiência pode contribuir para os déficits de interação social e para a hipersensibilidade sensorial característicos do transtorno.
É aqui que entra o canabidiol. O CBD atua indiretamente sobre os receptores CB1 e CB2, mas seu principal mecanismo no TEA é inibir a enzima FAAH, responsável por degradar a anandamida. Em outras palavras: o CBD ajuda o organismo a manter mais anandamida em circulação por mais tempo. Além disso, o CBD também ativa receptores TRPV1 e 5-HT1A, associados a efeitos ansiolíticos e pró-cognitivos, e exerce propriedades anti-inflamatórias que protegem o sistema nervoso [Pedrazzi et al., 2025; Sociedade Brasileira de Pediatria, 2019].
Portanto, o uso de Cannabis no tratamento de TEA não é uma aposta sem fundamento. Ao contrário: ele parte de uma hipótese neurobiológica sólida, que conecta diretamente o déficit endocanabinoide observado no autismo ao mecanismo de ação do CBD.


Cannabis no tratamento de TEA: Segurança no uso pediátrico
Uma das maiores dúvidas de pais e cuidadores é justamente sobre a segurança. E a resposta é tranquilizadora: o CBD, diferentemente do THC, não possui efeitos psicoativos e apresenta perfil de segurança bem estabelecido em estudos pediátricos. Um estudo aberto com 53 crianças e adolescentes com TEA (mediana de 11 anos) mostrou que 74% dos participantes apresentaram melhora geral com o uso de óleo de canabidiol, com efeitos adversos predominantemente leves e transitórios, como sonolência e alteração de apetite [Barchel et al., 2019]. Outro estudo israelense com 60 crianças observou que a maioria dos eventos adversos foi reversível, e que o tratamento permitiu inclusive a redução de outros medicamentos em uso.
É importante reforçar que o uso pediátrico deve ser sempre individualizado, supervisionado por um médico especialista e iniciado com doses baixas, com ajuste progressivo. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que o CBD seja considerado quando outros tratamentos não obtiveram controle satisfatório dos sintomas, e que a prescrição seja feita por neurologistas, psiquiatras ou neuropediatras com experiência no tema [SBP, 2019].
Cannabis no tratamento de TEA: Ansiedade e agitação
A ansiedade é uma das comorbidades mais prevalentes no TEA, estimada em até 40-50% dos pacientes, e frequentemente se manifesta como agitação, irritabilidade e comportamentos disruptivos.
Felizmente, essa é também uma das áreas onde o CBD apresenta as evidências mais consistentes. Uma revisão de literatura publicada no Brazilian Journal of Health Review (2023) identificou que o CBD possui propriedades ansiolíticas significativas, contribuindo para a redução da frequência e intensidade dos episódios ansiosos [França, 2023].
Especificamente no TEA, estudos observacionais registraram melhora da ansiedade em 47% dos pacientes e redução da agressividade em 67,6% após uso de óleo de canabidiol por período médio de 66 dias [Barchel et al., 2019].
O CBD atua modulando a neurotransmissão serotoninérgica (via receptor 5-HT1A) e reduzindo a excitabilidade neuronal, o que ajuda a explicar seu efeito calmante sem provocar sedação excessiva. Para famílias que convivem diariamente com episódios de crise, essa redução da agitação representa uma transformação significativa na qualidade de vida de todos.


Cannabis no tratamento de TEA: Comportamentos repetitivos e estereotipias
Os comportamentos repetitivos e as estereotipias, como balançar o corpo, girar objetos, repetir palavras ou insistir em rotinas rígidas, estão entre os critérios diagnósticos centrais do TEA e frequentemente geram sofrimento tanto para o paciente quanto para a família. A pesquisa mais recente sobre o tema veio da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP: um estudo publicado em 2025 na revista Pharmacology, Biochemistry and Behavior demonstrou que o CBD reduziu significativamente os comportamentos repetitivos em modelo animal de TEA, avaliados pelo teste de enterramento de bolinhas de vidro [Pedrazzi et al., 2025].
Esses resultados reforçam achados anteriores de estudos clínicos, que indicaram melhora em comportamentos disruptivos em 61% dos pacientes tratados com óleo de Cannabis [Aran et al., 2019]. O mecanismo proposto envolve a modulação GABAérgica e glutamatérgica pelo CBD, ou seja, o composto contribui para equilibrar o excesso de ativação neuronal que pode estar na origem de parte desses comportamentos.
Cannabis no tratamento de TEA: Problemas de sono em pessoas com TEA
Os distúrbios do sono afetam entre 50% e 80% das crianças com TEA, uma taxa muito superior à da população geral, e impactam diretamente o comportamento diurno, a aprendizagem e a saúde de toda a família. O CBD emerge como uma das opções mais estudadas para esse sintoma. O estudo observacional já citado com 53 crianças com TEA registrou melhora do sono em 71,4% dos participantes, tornando esse o desfecho com maior taxa de resposta positiva em toda a amostra [Barchel et al., 2019].
O CBD favorece o sono por dois caminhos principais: a modulação da anandamida (que tem papel na regulação do ciclo sono-vigília) e a ativação do receptor 5-HT1A, que reduz a ansiedade antecipatória, uma das causas mais comuns de insônia no TEA.
Uma revisão integrativa publicada em 2025 sobre a co-ocorrência de ansiedade e distúrbios do sono no TEA concluiu que o CBD pode reduzir a latência do sono e melhorar a estabilidade comportamental noturna, embora destaque a necessidade de mais ensaios clínicos controlados para estabelecer protocolos definitivos.


Cannabis no tratamento de TEA: Comunicação, sociabilidade e interação social
A dificuldade de comunicação e interação social é o coração do diagnóstico do TEA. E é exatamente nesse domínio que o sistema endocanabinoide tem sua conexão mais direta — já que a anandamida, cujos níveis estão reduzidos no TEA, desempenha papel fundamental na motivação social e na modulação da ocitocina, o chamado “hormônio do vínculo”. O estudo da FMRP-USP (2025) foi o que mais avançou nessa direção: demonstrou que o CBD aumentou substancialmente a sociabilidade dos animais com modelo de TEA, restaurando a interação social a níveis próximos ao grupo controle [Pedrazzi et al., 2025].
Além disso, o CBD também demonstrou favorecer a memória de reconhecimento no modelo animal, o que sugere efeitos cognitivos que poderiam, indiretamente, apoiar as habilidades de comunicação.
Em humanos, um estudo publicado em 2019 com 15 pacientes com TEA observou melhoras em déficits de comunicação e interação social ao longo de até 9 meses de tratamento com Cannabis medicinal [Bar-Lev Schleider et al., 2019].
Como iniciar o tratamento com CBD para TEA
Iniciar o tratamento com Cannabis no TEA no Brasil é um processo simples, regulamentado e totalmente legal. A Anvisa autoriza a prescrição e dispensação de produtos de Cannabis para condições neurológicas, incluindo o TEA.
Veja o passo a passo:


Referências
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5). 5ª ed. Washington: APA, 2013.
- Basavarajappa BS, Shivakumar M, Joshi V, Subbanna S. Endocannabinoid system in neurodegenerative disorders. J Neurochem. 2017;142(5):624-648.
- Zamberletti E, Gabaglio M, Parolaro D. The Endocannabinoid System and Autism Spectrum Disorders: Insights from Animal Models. Int J Mol Sci. 2017;18(9):E1916.
- Pedrazzi JFC et al. Acute cannabidiol treatment reverses behavioral impairments induced by embryonic valproic acid exposure in male mice. Pharmacology, Biochemistry and Behavior. 2025;247:173919. https://doi.org/10.1016/j.pbb.2024.173919
- Barchel D, Stolar O, De-Haan T et al. Oral Cannabidiol Use in Children With Autism Spectrum Disorder to Treat Related Symptoms and Co-morbidities. Front Pharmacol. 2019;9:1521.
- Aran A, Cassuto H, Lubotzky A, Wattad N, Hazan E. Brief Report: Cannabidiol-Rich Cannabis in Children with Autism Spectrum Disorder and Severe Behavioral Problems. J Autism Dev Disord. 2019;49(3):1284-1288.
- Bar-Lev Schleider L, Mechoulam R, Saban N, Meiri G, Novack V. Real life Experience of Medical Cannabis Treatment in Autism: Analysis of Safety and Efficacy. Sci Rep. 2019;9(1):200.
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Indicações para uso da Cannabis em pacientes pediátricos: uma revisão baseada em evidências. Documento Científico nº 3. Dezembro de 2019.
- Pinheiro MV, Lovatel VBC, Matiusso CCI. Canabidiol como terapia no Transtorno do Espectro Autista. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences. 2025;7(5):42-52. https://doi.org/10.36557/2674-8169.2025v7n5p42-52
- Barbaresco, ESO, Saddi, IF, Rodrigues, Y, Forti, RA, Oliveira, ID, Marchesani, LKS G, Sousa, AA (2026). Impacto do canabidiol na co-ocorrência de ansiedade e distúrbios do sono em pacientes com transtorno do espectro autista: uma revisão integrativa. Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 12(1), 1–9. https://doi.org/10.51891/rease.v12i1.23588
- França, GO; Oliveira, TVB; Cadengues, JM; Dias, LD. Uso terapêutico de óleo de Cannabis em pacientes com insônia e ansiedade: uma revisão. Brazilian Journal of Health Review, [S. l.], v. 6, n. 6, p. 28321–28338, 2023. DOI: 10.34119/bjhrv6n6-139. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/64853