Autismo

Aprendizagem no Autismo: Como o cérebro da criança com TEA aprende (e como ensinar)
Blog > Autismo

 

Poucas perguntas mobilizam tanto pais, professores e cuidadores quanto esta: como é o processo de aprendizagem das crianças com TEA? À primeira vista, o tema parece complexo demais. No entanto, a neurociência das últimas duas décadas tornou a resposta muito mais clara. O cérebro autista não aprende menos, ele aprende por outra rota.

Portanto, quando entendemos essa rota, o ensino deixa de ser tentativa e erro. Ele passa a ser estratégia. Neste artigo, reunimos quatro dimensões que costumam aparecer separadas: a base neurológica, a comunicação, as estratégias práticas passo a passo e a alfabetização. Juntas, elas formam um mapa completo.

 

Como é o processo de aprendizagem das crianças com TEA? Tudo começa no cérebro


Antes de falar em métodos, precisamos falar em neurobiologia. Afinal, toda estratégia pedagógica eficaz nasce de uma hipótese sobre o funcionamento cerebral.

The Transtorno do Espectro Autista é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento. Ou seja, as diferenças não estão no “esforço” da criança. Elas estão na arquitetura de conexões, no processamento sensorial e na forma como a informação é hierarquizada.

Neuroplasticidade: a janela que permanece aberta


A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de reorganizar conexões a partir da experiência. Além disso, ela é especialmente intensa nos primeiros anos de vida.

O estudo mais citado sobre o tema foi publicado na revista Pediatrics em 2010. Nele, Dawson e colaboradores acompanharam 48 crianças diagnosticadas entre 18 e 30 meses. Metade recebeu o Modelo Denver de Intervenção Precoce (ESDM) por dois anos. A outra metade seguiu com os serviços comuns da comunidade.

Os resultados foram expressivos. O grupo ESDM ganhou, em média, 17,6 pontos de QI, enquanto o grupo comparativo ganhou 7,0 pontos. Houve também melhora em linguagem e comportamento adaptativo.

Contudo, um alerta é necessário. Estudos posteriores multicêntricos replicaram parcialmente esses achados, com efeitos mais consistentes em linguagem. Logo, a intervenção precoce ajuda muito, mas não é mágica.

 

Percepção ampliada: por que o detalhe vem antes do todo

 

Aqui está uma das chaves para compreender como é o processo de aprendizagem das crianças com TEA.

O pesquisador Laurent Mottron propôs o modelo do Funcionamento Perceptual Aumentado (Enhanced Perceptual Functioning), publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders. Segundo esse modelo, o cérebro autista processa informação sensorial de baixo nível com eficiência superior.

Na prática, isso significa que:

  • A percepção vem primeiro, e o raciocínio abstrato vem depois;
  • Detalhes são captados com precisão notável, cores, texturas, padrões, sons;
  • O “todo” precisa ser construído, pois ele não se organiza automaticamente;
  • Áreas visuais do cérebro são mais recrutadas, mesmo em tarefas não visuais.

Por isso, uma instrução puramente verbal costuma falhar. Enquanto isso, a mesma instrução apoiada em imagem, gesto e objeto costuma funcionar.

O ruído invisível: processamento sensorial

 

Muitos comportamentos vistos como “desatenção” ou “birra” têm origem sensorial. Estudos apontam que dificuldades no processamento sensorial comprometem, em graus variados, o desenvolvimento e a aprendizagem.

Ou seja, a criança pode estar tentando aprender enquanto a lâmpada zumbe, a etiqueta da camiseta arranha e o ventilador gira. Consequentemente, a energia cognitiva é consumida antes mesmo do conteúdo chegar.


Funções executivas: o maestro da orquestra

 

As funções executivas organizam começo, meio e fim de uma tarefa. Elas incluem memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e controle inibitório.

No TEA, esse “maestro” frequentemente trabalha em ritmo próprio. Assim, a criança pode saber a resposta e ainda assim travar na sequência de passos. Não é falta de conhecimento. É falta de andaime organizacional.

 

Comunicação: o alicerce invisível de toda aprendizagem

 

Não há aprendizagem sem comunicação. Portanto, qualquer resposta séria à pergunta como é o processo de aprendizagem das crianças com TEA precisa passar por aqui.

 

A linguagem literal e o comando eficaz

O cérebro autista tende a processar a linguagem de forma literal e concreta. Além disso, o tempo de processamento auditivo costuma ser mais longo.

Compare os dois comandos abaixo:

Instrução ineficaz

Instrução eficaz

“Dá pra você se organizar aí, filho?” “Guarde os lápis na caixa.”
“Vamos, já está na hora!” “Agora: calçar o tênis.”
“Você não vai comer nada mesmo?” “Escolha: maçã ou banana.”
“Comporte-se na escola.” “Fale baixo na sala.”

 

Repare no padrão. Frases curtas, verbo claro, uma ação por vez.

Além disso, respeite o tempo de espera. Conte mentalmente até dez após dar a instrução. Muitas famílias descobrem, com surpresa, que a criança sempre respondeu, apenas em outro compasso.

Comunicação Alternativa e Ampliada (CAA): desfazendo um mito

 

Existe um medo recorrente entre cuidadores: “Se ele usar figuras ou tablet, nunca vai falar.”

Felizmente, a ciência já respondeu a essa dúvida. Uma revisão sistemática de Schlosser e Wendt, publicada no American Journal of Speech-Language Pathology (2008), analisou estudos sobre CAA em crianças autistas. A conclusão foi direta: a comunicação alternativa não impede a produção de fala. Pelo contrário, a maioria dos estudos registrou aumento na fala, ainda que os ganhos sejam modestos.

Revisões mais recentes, publicadas no Journal of Autism and Developmental Disorders, reforçaram o mesmo achado.

Ou seja: dar voz por outro canal não fecha a porta da fala. Ela abre a porta da comunicação.
E comunicação é pré-requisito de aprendizagem.

 

Atenção compartilhada: o gatilho que liga o aprender

A atenção compartilhada acontece quando duas pessoas olham para o mesmo objeto e sabem disso. É o “olha o passarinho!” seguido do olhar para o adulto.

Esse mecanismo é o motor natural da aprendizagem social. No TEA, ele costuma surgir mais tarde ou de forma atípica. Por isso, intervenções contemporâneas o tratam como alvo terapêutico prioritário, e não como consequência esperada.

Como é o processo de aprendizagem das crianças com TEA na prática: 7 passos

Agora vem a parte operacional. A seguir, você encontra um roteiro aplicável em casa, na clínica e na escola.

 

Passo 1 — Mapeie o perfil, não o rótulo

Antes de ensinar, observe. Registre por sete dias:

  1. Interesses intensos (dinossauros, elevadores, mapas, música);
  2. Gatilhos sensoriais (barulho, luz, textura, cheiro);
  3. Melhor horário cognitivo do dia;
  4. Canal preferido: visual, auditivo, tátil ou motor;
  5. Sinais de sobrecarga antes da crise.

Esse mapa vale mais do que qualquer apostila genérica.

 

Passo 2 — Estruture o ambiente antes do conteúdo

Ambiente organizado reduz a demanda das funções executivas. Portanto, comece por aqui:

  • Um espaço fixo para estudar, sempre o mesmo;
  • Mesa limpa, com apenas o material da tarefa;
  • Iluminação estável, preferencialmente natural;
  • Ruído controlado, com abafador disponível se necessário;
  • Caixa de “pronto” para guardar o que já foi concluído.

Passo 3 — Torne o tempo visível

O tempo é abstrato. Logo, ele precisa ganhar forma.

Use agenda visual com fotos ou pictogramas na sequência do dia. Além disso, empregue um timer visual (ampulheta ou relógio colorido). Assim, a criança enxerga quanto falta — e a ansiedade diminui.

 

Passo 4 — Fatie a tarefa (análise de tarefas)

Toda habilidade complexa pode ser dividida. Por exemplo, “escovar os dentes” vira:

  1. Pegar a escova;
  2. Abrir a pasta;
  3. Colocar a pasta na escova;
  4. Escovar os dentes de cima;
  5. Escovar os dentes de baixo;
  6. Enxaguar;
  7. Guardar.

Em seguida, ensine um passo por vez. Depois, encadeie.

 

Passo 5 — Use o interesse como combustível

Este é, talvez, o passo mais subestimado. O interesse restrito não é um problema a ser eliminado. Ele é uma ponte pronta.

  • A criança ama trens? Ensine adição contando vagões.
  • Adora Minecraft? Trabalhe frações com blocos.
  • Fascínio por bandeiras? Introduza geografia e cores.

Dessa forma, a motivação deixa de ser um obstáculo diário.

 

Passo 6 — Reforce o certo, imediatamente

O reforço precisa ser específico, imediato e sincero. Em vez de “muito bem”, prefira “você guardou todos os lápis sozinho“.

Além disso, reforce a tentativa, não apenas o acerto. A persistência é a habilidade que sustenta todas as outras.

 

Passo 7 — Registre, revise e ajuste

Anote o que funcionou. Anote o que falhou. Depois, revise a cada 15 dias.

Sem registro, a família repete estratégias improdutivas por meses. Com registro, o progresso se torna visível — inclusive nos dias difíceis.

Alfabetização: como é o processo de aprendizagem das crianças com TEA na leitura

 

A alfabetização merece um capítulo próprio. Isso porque o perfil de leitura no autismo é bastante peculiar.

Hiperlexia: quando decodificar vem antes de compreender

 

A hiperlexia descreve crianças que reconhecem palavras muito cedo e com precisão surpreendente, porém- sem compreender o significado.

Pesquisadores da Universidade McGill estimam que entre 6% e 20% das crianças autistas apresentam hiperlexia. Trata-se, portanto, de um fenômeno relevante e frequentemente mal interpretado.

Um estudo publicado em Research in Autism Spectrum Disorders avaliou crianças italianas com TEA. Os resultados mostraram habilidades de decodificação preservadas, inclusive na leitura de pseudopalavras. Em contraste, a compreensão leitora apresentou prejuízo seletivo, independentemente do nível cognitivo.

 

Habilidade Costuma estar O que fazer
Decodificação (som ↔ letra) Frequentemente preservada Aproveitar como porta de entrada
Fluência Variável Praticar com textos de interesse
Vocabulário Concreto forte, abstrato frágil Ensinar com imagem e contexto
Compreensão Geralmente mais frágil Ensinar explicitamente
Inferência Área mais desafiadora Trabalhar passo a passo

Rotina prática de alfabetização em 6 movimentos

  1. Ancore no interesse. Um texto sobre planetas vale mais que dez textos genéricos.
  2. Pré-ensine o vocabulário. Apresente cinco palavras-chave antes da leitura.
  3. Use apoio visual. Ilustre parágrafos com imagens ou histórias sociais.
  4. Pergunte em camadas. Comece pelo literal (“quem?”), depois avance ao inferencial (“por que ele fez isso?”).
  5. Torne o abstrato concreto. Emoções, metáforas e ironias precisam ser ensinadas, não presumidas.
  6. Escreva com modelo. Ofereça estruturas de frase para completar, em vez de página em branco.

Por fim, celebre a leitura funcional. Ler uma receita, um cardápio ou uma bula também é alfabetização plena.

 

Referências científicas

  1. Dawson, G. et al. Randomized, Controlled Trial of an Intervention for Toddlers With Autism: The Early Start Denver Model. Pediatrics, v. 125, n. 1, e17–e23, 2010. PMID: 19948568.
  2. Mottron, L. et al. Enhanced Perceptual Functioning in Autism: An Update, and Eight Principles of Autistic Perception. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 36, 2006.
  3. Schlosser, R. W.; Wendt, O. Effects of Augmentative and Alternative Communication Intervention on Speech Production in Children With Autism: A Systematic Review. American Journal of Speech-Language Pathology, v. 17, n. 3, p. 212–230, 2008. PMID: 18663107.
  4. Zuccarello, R. et al. Reading decoding and comprehension in children with autism spectrum disorders: Evidence from a language with regular orthography. Research in Autism Spectrum Disorders, 2015.
  5. Macdonald, D.; Luk, G.; Quintin, E.-M. Pesquisas sobre hiperlexia e letramento no TEA. McGill University, Department of Educational & Counselling Psychology.
  6. Momo, A.; Silvestre, C. Alterações sensoriais no Transtorno do Espectro Autista: implicações no desenvolvimento e na aprendizagem. SciELO/PePSIC.

Compartilhe este artigo