Esquizofrenia

O que você precisa saber sobre Cannabis e esquizofrenia

Cannabis e esquizofrenia é um dos temas mais pesquisados e mais mal compreendidos da saúde mental. A ciência mostra um cenário bem mais detalhado do que a frase popular “maconha causa esquizofrenia”. Neste artigo, você vai ver como Cannabis e esquizofrenia se relacionam de fato. Você também vai conhecer o que os estudos dizem sobre o canabidiol (CBD) e por que ele desperta tanto interesse na pesquisa clínica.

Varias imagens de uma mulher em varias sensações e emoções

O que é esquizofrenia?

A esquizofrenia é um transtorno mental grave e crônico, que afeta a forma como a pessoa percebe a realidade, pensa e se relaciona. Segundo o DSM-5, o manual diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, os sinais mais característicos são:

  • Delírios persecutórios: crenças fixas de perseguição ou ameaça, sem base na realidade.
  • Alucinações visuais e auditivas: perceber vozes ou imagens que não existem.
  • Discurso desorganizado: dificuldade de manter uma linha de raciocínio na fala.
  • Comportamentos bizarros: atitudes incomuns ou fora do contexto.
  • Afeto embotado: redução da expressão emocional.

Esses sintomas costumam ser divididos em positivos (delírios e alucinações) e negativos (isolamento e embotamento afetivo). Além disso, o transtorno costuma afetar a cognição e a funcionalidade no dia a dia. Por isso, o tratamento combina medicação antipsicótica, acompanhamento psiquiátrico e suporte psicossocial.

Pé de Cannabis Sativa

Por que o debate sobre Cannabis e esquizofrenia é tão intenso?

A esquizofrenia surge de uma combinação de fatores genéticos, biológicos e ambientais. Como não existe uma causa única, cada novo fator de risco estudado gera muito debate. Foi assim com a relação entre Cannabis e esquizofrenia, que ganhou espaço no imaginário popular antes de ser bem compreendida pela ciência.

Cannabis causa esquizofrenia?

Não há comprovação científica de que a Cannabis, isoladamente, cause esquizofrenia. O que os estudos mostram é uma associação complexa, que depende do composto, da dose, da idade de início e da vulnerabilidade de cada pessoa.

Uma revisão sistemática publicada pela UFBA analisou 11 artigos e encontrou uma associação sugestiva entre Cannabis e esquizofrenia. O risco aparecia sobretudo em pessoas com predisposição à psicose e uso precoce. Ainda assim, os autores concluíram que não é possível definir uma relação causal.

A pergunta certa

Em vez de perguntar “a Cannabis causa esquizofrenia?”, a ciência pergunta: qual composto, em qual dose, em quem e com qual acompanhamento? Essa mudança é decisiva. A Cannabis é uma planta com dezenas de canabinoides, e cada um age de forma diferente. As preocupações de risco se concentram principalmente no THC em altas concentrações. O CBD, por sua vez, segue outro caminho, como você verá adiante.

Cannabis e esquizofrenia

Cannabis e esquizofrenia: o que os estudos mostram

Nas últimas décadas, a pesquisa sobre Cannabis e esquizofrenia mudou de foco. Antes, a pergunta principal era sobre risco. Hoje, uma parte importante dos estudos investiga se o CBD poderia contribuir para o cuidado de pessoas com o diagnóstico. Uma revisão publicada na Neurotherapeutics resume a hipótese: o CBD pode ter potencial terapêutico para psicose e esquizofrenia, possivelmente com melhor tolerabilidade que os antipsicóticos atuais.

Estudo de Leweke e colaboradores (2012)

Esse ensaio clínico randomizado de fase II, duplo-cego e de grupo paralelo comparou o CBD com a amissulprida, um potente antipsicótico. Participaram 42 pacientes. A dose de CBD começou em 200 mg e foi titulada até 800 mg por dia.

Os resultados foram animadores:

  • Os pacientes tratados com CBD tiveram melhora clínica significativa, medida pela redução do escore total da escala PANSS (P<0,001, dia 0 vs dia 28).
  • A melhora ocorreu em todas as subcategorias de sintomas da esquizofrenia.
  • O CBD mostrou eficácia comparável à da amissulprida, com um perfil de efeitos adversos  muito melhor.

Os autores propuseram um mecanismo: o CBD eleva os níveis de anandamida, um canabinoide produzido pelo próprio organismo. Isso ocorre porque ele inibe moderadamente a degradação dessa substância, sem ativar diretamente os receptores canabinoides.

Estudo de McGuire e colaboradores (2017)

Esse ensaio multicêntrico, duplo-cego e controlado por placebo foi publicado no American Journal of Psychiatry. Os pacientes receberam 1.000 mg de CBD por dia, em duas doses fracionadas, junto ao antipsicótico que já usavam. O tratamento durou seis semanas.

Os principais achados foram:

  • O grupo do CBD teve menos sintomas positivos do que o grupo placebo.
  • Os clínicos observaram uma melhora nos pacientes do CBD.
  • Houve tendência de melhora na cognição (escala BACS) e no funcionamento global.
  • O CBD foi bem tolerado, e os eventos adversos foram semelhantes aos do placebo.

THC e CBD: dois compostos, dois perfis

Falar de Cannabis e esquizofrenia sem distinguir THC de CBD leva a conclusões imprecisas.idiol Os dois compostos vêm da mesma planta, mas agem de formas diferentes no organismo. É como tratar dois irmãos como se fossem a mesma pessoa: a origem é comum, porém cada um tem um perfil próprio.

Característica THC

CBD

Efeito psicoativo Sim, é o principal responsável pelos efeitos psicoativos Não típico; considerado não psicotomimético
Ação nos receptores canabinoides Ativa os receptores canabinoides Não ativa diretamente os receptores; eleva a anandamida ao inibir sua degradação
Relação com a psicose Pode produzir sintomas transitórios semelhantes à esquizofrenia e exacerbar sintomas existentes Investigado como adjuvante: menos sintomas positivos em ensaios clínicos
Perfil de tolerabilidade nos estudos Preocupações de segurança com doses altas Bem tolerado; eventos adversos semelhantes ao placebo
Pesquisas em esquizofrenia Foco de estudos sobre risco Foco de estudos terapêuticos

Uma revisão sobre constituintes da Cannabis resume bem essa diferença. O CBD parece aliviar sintomas positivos da esquizofrenia e ainda reduzir efeitos adversos associados aos antipsicóticos.

Cannabis medicinal: um uso com critério e acompanhamento

No Brasil, os produtos de Cannabis para uso medicinal seguem a RDC nº 1.015/2026 da Anvisa. A norma regula a autorização sanitária, a fabricação, a comercialização, a prescrição e a dispensação desses produtos. A prescrição é restrita a médicos e cirurgiões-dentistas que acompanham clinicamente o paciente.

Esse modelo traz vantagens importantes para a segurança. A receita precisa indicar nome do produto, concentração e posologia. O tratamento começa com avaliação individual, inclui o histórico pessoal e familiar e prevê acompanhamento ao longo do tempo. Assim, o uso medicinal é bem diferente do consumo sem orientação: o produto é definido e o médico ajusta a conduta conforme a resposta de cada pessoa.

Quem deve conversar com o médico

Pessoas com histórico pessoal ou familiar de psicose merecem atenção especial. Estudos sobre predisposição familiar mostram maior sensibilidade aos efeitos da Cannabis nesse grupo. Por isso, compartilhe sempre seu histórico completo com a equipe de saúde. Nunca suspenda ou troque medicamentos por conta própria. Em caso de dúvida, o ideal é procurar o psiquiatra ou o médico que acompanha você.

 

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

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