Cannabis
Poucas plantas carregam tantas histórias quanto a Cannabis. Do uso recreativo às pesquisas clínicas de ponta, ela percorreu um caminho longo até chegar às farmácias brasileiras na forma de um produto seguro e padronizado.
Mas afinal, o que é o extrato de Cannabis? Como ele é feito? E por que tantos médicos e pacientes têm apostado nele? Se essas perguntas estão na sua cabeça, este artigo foi escrito para você.

O que é extrato de Cannabis sativa
O extrato de Cannabis é uma formulação obtida das flores da planta Cannabis sativa L. Diferente do que muita gente imagina, trata-se de um produto altamente técnico. Ele é produzido por meio de processos rigorosos de extração, purificação e padronização.
A Cannabis sativa é uma planta riquíssima em compostos chamados canabinoides. Estima-se que ela produza cerca de 545 compostos químicos distintos, sendo 113 deles já identificados como canabinoides. Os mais abundantes são o canabidiol (CBD), o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), o cannabigerol (CBG) e o canabicromeno (CBC). Além disso, terpenos e flavonóides também estão presentes e contribuem para os efeitos terapêuticos. Por isso, o extrato de Cannabis carrega uma diversidade química impressionante.
A produção do extrato envolve duas etapas principais. Primeiro, a extração: os compostos ativos são separados da planta por técnicas como a extração crioetanólica, que usa etanol em baixíssimas temperaturas, ou a extração com CO₂ supercrítico. Cada método tem suas vantagens. Contudo, todos visam preservar a integridade dos compostos ativos. Em seguida, a etapa de descarboxilação é realizada para converter os canabinoides ácidos em suas formas neutras, que apresentam maior atividade medicinal.
O resultado final é um fitocomplexo padronizado e completo. Além dos canabinoides, terpenos e flavonóides compõem este produto. Por isso, o extrato de Cannabis vai muito além de uma substância isolada.

Para que serve o extrato de Cannabis?
O extrato de Cannabis pode ser indicado para diversas condições clínicas em que outros tratamentos convencionais se mostraram insuficientes. Além disso, seu uso é sustentado por evidências científicas crescentes. As principais indicações estudadas incluem:
- Dor crônica e fibromialgia : estudos demonstram redução significativa da dor e melhora na função física
- Ansiedade e insônia : evidências clínicas apontam melhora dos sintomas com uso regular e supervisionado
- Epilepsias refratárias : ensaios randomizados comprovaram redução de crises em síndromes como Dravet e Lennox-Gastaut
- Agitação em demências : em estudos clínicos, 60% dos pacientes obtiveram redução relevante dos sintomas comportamentais
- Espasticidade : melhora observada em pacientes com esclerose múltipla e outras condições neurológicas
Além dessas indicações, o extrato de Cannabis também é investigado para náuseas associadas à quimioterapia e para cuidados paliativos em oncologia. Por isso, ele é considerado uma ferramenta terapêutica de amplo espectro. No entanto, o uso só é recomendado após avaliação médica.
Vale destacar que a qualidade do extrato influencia diretamente nos resultados do tratamento. Dessa forma, produtos produzidos com rigor farmacêutico, e aprovados por agências como a Anvisa, oferecem resultados mais consistentes e previsíveis. Assim, o paciente consegue acompanhar sua resposta clínica de maneira mais segura e estruturada.
Qual a diferença entre extrato de Cannabis e canabidiol
Essa é uma das dúvidas mais comuns entre quem começa a pesquisar sobre o tema. Afinal, o que diferencia o extrato de Cannabis do canabidiol isolado? A resposta está na composição do produto.
O CBD isolado é uma única molécula purificada da planta. Já o extrato de Cannabis preserva dezenas de compostos naturais, como canabinoides, terpenos e flavonoides.
Por isso, estudos indicam que extratos de espectro completo tendem a oferecer benefícios mais abrangentes do que o CBD puro isolado.


Portanto, a escolha entre CBD isolado e extrato de Cannabis depende das necessidades clínicas individuais. Além disso, fatores como a condição tratada, o perfil do paciente e as possíveis interações medicamentosas são considerados. Assim, essa decisão deve ser sempre tomada junto ao médico prescritor.


Qual o mecanismo de ação do Extrato de Cannabis?
O extrato de Cannabis age principalmente por meio do Sistema Endocanabinoide (SEC). Esse sistema é uma rede de sinalização presente em praticamente todos os órgãos e tecidos do corpo humano. Além disso, ele regula funções essenciais como dor, sono, humor, apetite e resposta imune. Por isso, sua modulação tem impacto terapêutico em diversas condições de saúde.
Os dois principais receptores do SEC são o CB1, predominante no sistema nervoso central, e o CB2, presente no sistema imunológico e periférico. O CBD inibe a enzima que degrada a anandamida, nosso “canabinoide interno do bem-estar”. Dessa forma, os níveis dessa substância são elevados no organismo. Além disso, o CBD interage com receptores serotoninérgicos (5-HT1A) e vaniloides (TRPV1), o que explica seus efeitos ansiolíticos, antidepressivos e analgésicos.
Em relação à segurança, estudos pré-clínicos com extratos de Cannabis demonstraram resultados sólidos:
- Sem dano ao material genético : nenhum efeito genotóxico ou mutagênico foi identificado nos testes de Ames, Ensaio Cometa e Teste do Micronúcleo
- Boa tolerabilidade em doses elevadas : alterações comportamentais observadas foram transitórias e dose-dependentes
- Sem impacto negativo nos sistemas cardiovascular, respiratório e nervoso central nas doses terapêuticas avaliadas


No entanto, interações medicamentosas merecem atenção especial. O extrato de Cannabis pode interagir com fármacos metabolizados pelo citocromo P450 — como clobazam, valproato e carbamazepina. Por isso, o monitoramento periódico das funções hepáticas e o acompanhamento médico contínuo são fundamentais durante todo o tratamento.
Lembre-se: O extrato de Cannabis é um produto farmacêutico que exige receituário médico para ser adquirido. Converse sempre com seu médico antes de iniciar ou alterar qualquer tratamento.